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04/12/2019| Mortes por cancro do pâncreas aumentou nos últimos 25 anos e prevê-se que aumente mais 50% nas próximas duas décadas

 



 

Nos Estados Unidos (dados do Surveillance, Epidemiology, and End Results Program - SEERS) registou-se um aumento médio anual de cerca de 0.95% da taxa de incidência de cancro do pâncreas, ajustada à idade, desde 1994. Estes dados são replicados noutros países desenvolvidos nomeadamente no continente europeu, mas também em outras partes do globo exibindo uma correlação directa forte com os índices de desenvolvimento humano.
O envelhecimento demográfico, comum aos países desenvolvidos, explica só parcialmente esta evolução. A comunidade científica é unânime em atribuir um peso muito relevante à prevalência crescente de fatores de risco modificáveis: o tabagismo crónico; a obesidade / diabetes mellitus e eventualmente, o consumo alcoólico e os hábitos dietéticos ocidentais pobres em vegetais e ricos em carne e gorduras saturadas.
Em Portugal, até à data, registávamos uma escassez importante de dados e estudos que descrevessem o comportamento epidemiológico desta doença de forma a prever a sua evolução futura.
No estudo a publicar na edição de Janeiro da revista Pancreas, gastrenterologistas e oncologistas da Faculdade de Medicina de Lisboa trataram dados publicados pelo INE em colaboração com a DGS. Analisaram-se as mortes com causa atribuída em certificado de óbito, a cancro do pâncreas (ICD10-C25; ICD9/8–157) de 1991 a 2015.
Neste período, o número absoluto de mortes por neoplasia do pâncreas duplicou (701 mortes em 1991 para 1415 em 2015, tendo já em 2017 ultrapassado as 1500 mortes anuais, n=1535) o que traduz um aumento médio anual de quase 3% (AAPC = 2.85%). A taxa de mortalidade ajustada à idade (AAMR), padronizada à European Standard Population (2013) de forma a melhor refletir o peso de uma população envelhecida, aumentou 22,8% num incremento médio de quase 1% ao ano (AAPC = 0.91%). Estes valores são sobreponíveis aos descritas para outros países desenvolvidos tal como os EUA e a França.

Dos óbitos registados, 99.8% ocorreram em idades acima dos 40 anos, com o pico máximo de mortalidade (considerando ambos os géneros) entre os 75 e os 79 anos de idade. Outro dado alarmante é uma taxa de crescimento de mortalidade atualmente mais acentuada entre os 50 e os 54 anos de idade (APC, 1.61; 95% CI, 0.65–2.59) o que pode traduzir, caso esta tendência se mantenha, um shift de incidência para idades mais precoces.
Registam-se mais mortes por cancro do pâncreas nos homens do que nas mulheres (14,12 vs. 8,88 por 100.000 habitantes). A taxa de mortalidade atingiu o seu pico máximo entre os 70 e os 74 anos de idade nos homens e cerca de 15 anos mais tarde nas mulheres, no grupo > 85 anos.
Por fim, este estudo alertou também para a existência de relevantes diferenças regionais. As regiões dos Açores e do Alentejo apresentam as mais elevadas taxas de mortalidade a nível nacional, cerca de 1,5 a 2x superior às restantes regiões. Foi também nestas regiões e no arquipélago da Madeira que a taxa de aumento de mortalidade foi mais acentuada, variando entre 2.52% no Alentejo (AAPC, 2.52; 95% CI, 1.89–3.16; P < 0.001) e 1,53% nos Açores (AAPC, 1.53; 95% CI, 0.59–2.48, P = 0.003). Todas as restantes regiões registaram taxas aumento inferiores a 1%. A elevada prevalência de fatores risco como o tabagismo ativo e excesso de peso registada nestas regiões pode em parte justificar as assimetrias registadas.
Por fim tendo por base a evolução de 1991 a 2017, produziu-se um modelo estatístico de previsão para as próximas décadas. A estimativa do número absoluto de mortes para o ano de 2035 (n = 2137; 95% CI, 1862–2413) corresponderá a um aumento de 51% em comparação com 2015.
Todos estes elementos são tanto mais relevantes quanto consideramos que apesar dos mais recentes avanços terapêuticos, as taxas de sobrevivência não ultrapassam na maioria dos países os 5 a 8% aos 5 anos. Para tal muito contribui um padrão de manifestação semiológica tardio culminando no diagnóstico de uma doença, em geral, avançada e sem critérios de ressectabilidade curativa (50 a 85% dos casos). A atuação multidisciplinar é atualmente essencial para optimizar as probabilidades de sobrevivência e a qualidade de cuidados. A gastrenterologia tem um papel fundamental na vigilância dos grupos de risco, no diagnóstico (ex: técnicas de ultrassonagrafia endoscópica) mas também na paliação da obstrução biliar (ex: colocação de endopróteses biliares por CPRE) ou da dor (ex: neurólise por ultrassonografia endoscópica).
Em conclusão, e perante o cenário presente e futuro traçado, será essencial mobilizar a comunidade científica e a sociedade civil para procurar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce.
https://www.mygastrenterologia.pt/opini%C3%A3o/item/580-morte-por-cancro-do-p%C3%A2ncreas-aumentou-nos-%C3%BAltimos-25-anos-e-prev%C3%AA-se-que-aumente-mais-50-nas-pr%C3%B3ximas-duas-d%C3%A9cadas.html

 

Fonte texto e imagem: News Farma

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