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23/07/2019| Genes mostram que a anorexia nervosa também tem uma origem metabólica

 



 

A par da já conhecida origem psiquiátrica, a “arquitetura genética” da anorexia nervosa revelou que existem também vários traços metabólicos que podem ser associados à doença. Os cientistas defendem que a anorexia nervosa deve passar a ser encarada como uma doença psiquiátrica e metabólica e que a abordagem terapêutica deve ter o novo alvo em conta.
O artigo agora publicado revista Nature Genetics confirma que a anorexia nervosa tem correlações genéticas com alguns distúrbios psiquiátricos – como a perturbação obsessiva-compulsiva, a depressão major, a ansiedade e a esquizofrenia. Um resultado que ajuda a confirmar a natureza psiquiátrica desta doença que na literatura científica é frequentemente citada como a que tem a mais elevada taxa de mortalidade. Não é também novidade que se trata de uma patologia complexa, que afeta mais mulheres do que homens (entre 1 e 2% das mulheres e entre 0,2 e 0,4% dos homens). Estes doentes têm uma perda de peso excessiva, vivem com uma imagem corporal totalmente distorcida e um medo intenso de ganhar peso. Sintomas que podem levar à inanição e à morte. Recentemente, um estudo sobre este tipo de distúrbios alimentares concluiu que, em Portugal, as hospitalizações por anorexia nervosa duplicaram nos últimos 15 anos.
Desta vez, o projeto sugere que a anorexia nervosa é também uma doença metabólica, e não apenas psiquiátrica. A conclusão vem confirmar também pistas anteriores que tinham já encontrado pontos comuns entre doenças metabólicas e os distúrbios alimentares, designadamente quando se olhava, por exemplo, para alterações hormonais importantes que resultavam num desequilíbrio metabólico do organismo. No entanto, pensava-se que estes problemas metabólicos eram, acima de tudo, uma consequência da severa dieta alimentar e da inanição dos doentes com anorexia alimentar. O novo estudo indica que há certos traços metabólicos que podem estar lá antes da doença se manifestar.
Os cientistas analisaram dados recolhidos no âmbito de um projeto relacionado especificamente com o estudo genético da anorexia nervosa e também pelo grupo de especialistas dedicados a distúrbios alimentares do consórcio de genética psiquiátrica. O conjunto de dados incluiu 16.992 casos de anorexia nervosa e 55.525 indivíduos que serviram de grupo de controlo de 17 países da América do Norte, Europa e Australásia (região que inclui a Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e outras pequenas ilhas da parte oriental da Indonésia).
O comunicado de imprensa do King’s College sublinha três conclusões principais. “A base genética da anorexia nervosa coincide com traços metabólicos (inclusivamente glicémicos), lipídicos (gorduras) e antropométricos (medidas corporais), e o estudo mostra que isso é independente dos efeitos genéticos que influenciam o índice de massa corporal (IMC)”, sublinham os especialistas. Mas há mais coincidências. Assim, há também assinaturas genéticas comuns à anorexia nervosa e outros distúrbios psiquiátricos. Por fim, os fatores genéticos que estão associados à anorexia nervosa também influenciam a atividade física, o que, concluem os cientistas, “pode explicar a tendência das pessoas com anorexia nervosa para serem muito ativas”.
“Os problemas metabólicos observados em doentes com anorexia nervosa são mais frequentemente atribuídos à inanição, mas o nosso estudo mostra que as diferenças metabólicas também podem contribuir para o desenvolvimento do distúrbio. Além disso, as nossas análises indicam que os factores metabólicos podem desempenhar um papel quase tão importante como os efeitos puramente psiquiátricos”, resume o Prof. Doutot Gerome Breen, investigador do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociências, no King’s College, que liderou o estudo.
Citada no comunicado, a Prof.ª Doutora Janet Treasure, outras das autoras do estudo e investigadora no mesmo instituto, acrescenta ainda: “Ao longo do tempo, tem havido uma incerteza sobre o enquadramento da anorexia nervosa devido à mistura de características físicas e psiquiátricas. Os nossos resultados confirmam essa dualidade e sugerem que a integração de informações metabólicas pode ajudar os médicos a desenvolver melhores maneiras de tratar os distúrbios alimentares.”
No artigo, os autores fazem referência a trabalhos anteriores que já tinham deixado esta hipótese em aberto. No entanto, sublinham que o tamanho da amostra usada agora neste estudo “permitiu caracterizar mais plenamente a contribuição metabólica para a anorexia nervosa”. A desregulação metabólica pode contribuir para a excepcional dificuldade que os indivíduos com anorexia nervosa têm em manter um IMC saudável (mesmo após intervenção terapêutica), argumentam os autores, concluindo que este estudo encoraja a consideração dos factores metabólicos e psicológicos da anorexia nervosa e, assim, “explora novos caminhos para tratar esta doença frequentemente letal”.
Fonte: Público
https://www.mygastrenterologia.pt/atualidade/item/470-genes-mostram-que-a-anorexia-nervosa-tamb%C3%A9m-tem-uma-origem-metab%C3%B3lica.html

 

Fonte texto e imagem: News Farma

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