Dor das lesões desportivas – como prevenir e tratar!

A prática de uma modalidade desportiva, arte marcial ou de exercício físico implica o aumento da atividade do aparelho locomotor. Músculos, tendões, ligamentos articulações e ossos (unidade motora) são chamados a dar resposta, expondo o aparelho locomotor a lesões que podem acontecer quando menos se espera. Saiba como as prevenir e tratar a dor que provocam.

Tratar as mazelas dolorosas

A dor é um sintoma frequentemente desvalorizado, por ser tão comum, e muitas pessoas tentam ultrapassá-la sem tratamento. Outras, por falta de informação, ou incapacidade para diferenciar o tipo de lesão que sofreram, cometem erros muito habituais quando a tentam tratar. De acordo com o Dr. Henrique Jones, “a tendência de muitas pessoas que fazem lesões musculares agudas é tomar um anti-inflamatório, o que está errado. À partida, não se deve fazer tratamento anti-inflamatório quando há lesão muscular, porque a inflamação localizada é uma reação do organismo que faz parte do processo de cura. Logo, o anti-inflamatório inibe o processo de cura iniciado pelo organismo. Havendo dor, podemos e devemos fazer tratamento analgésico. De preferência, devemos colocar gelo, mas, como nem sempre está à mão, poderá ser necessário obviar a dor através de um medicamento analgésico. Uma vez que o músculo lesionado contrai e a contração provoca dor, pode também ser útil fazer tratamento com um relaxante muscular”.
Se a lesão for articular, periarticular ou ligamentar, “além do analgésico, já poderá ter pertinência fazer tratamento anti-inflamatório, porque o controlo da inflamação é um processo que interessa à articulação, restringindo a reação inflamatória intra-articular, nomeadamente, o aumento do volume líquido que é segregado”. Nas palavras do ortopedista e especialista em Medicina Desportiva, “quando a lesão ocorre, o melhor que podemos fazer é a aplicação local de gelo – é o melhor e mais barato anti-inflamatório, analgésico e vasoconstritor. Por exemplo, quando há entorse do tornozelo deve-se sempre fazer gelo, durante 20 minutos e várias vezes por dia, com intervalos de uma hora. O membro deve estar elevado, nas primeiras horas, deve-se fazer contenção do tornozelo com uma ligadura elástica e evitar por o pé no chão”, sublinha o especialista, reiterando que “nestas situações, podemos considerar uma ajuda através de medicação analgésica e anti-inflamatória”.
 

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Quais as causas da traumatologia desportiva e as lesões mais frequentes?

Segundo o Dr. Henrique Jones, ortopedista, especialista em Medicina Desportiva e responsável pela condição física da Seleção Nacional de Futebol, “os traumatismos podem ser diretos ou indiretos. O traumatismo direto pode resultar do contacto com um adversário, com materiais utilizados na prática desportiva ou que balizam os campos desportivos” – como acontece ao futebolista que é rasteirado, ao ginasta que cai sobre o cavalete ou ao surfista que embate com a prancha. “Os traumatismos indiretos decorrem, sobretudo, de gestos em que o músculo, tendão ou ligamento sofrem lesão sem ação direta, apenas pelo facto de existirem contrações anormais ou posicionamentos inesperados no contacto com o solo”.
Os traumatismos diretos e indiretos estão, por sua vez, associados a fatores extrínsecos e/ou intrínsecos ao desportista. “Os fatores extrínsecos estão relacionados com o meio onde se exerce a prática desportiva – seja o pavilhão, o estádio, a piscina, a praia ou a rua. Incluem variáveis como as características do terreno, condições atmosféricas, os materiais desportivos utilizados ou a maior ou menor agressividade dos adversários. Os fatores intrínsecos são os que propiciam que o indivíduo sofra uma lesão. Por exemplo, se tem fragilidade tendinosa prévia, é candidato a rasgar um tendão; se apresenta lesões cartilagíneas crónicas, por prática desportiva de longa duração, tem um fator predisponente a lesão; se tem carências vitamínicas e minerais, pode estar mais sujeito a lesão por menor resistência óssea; se tem cáries dentárias, pode ter maior tendência a sofrer lesões músculo-tendinosas de natureza imunológica”, exemplifica o especialista.
As lesões do aparelho locomotor podem ser musculares, articulares, ligamentares e tendinosas. No domínio da traumatologia desportiva, estas podem também ser classificadas como agudas, crónicas e lesões de acumulação traumática. De acordo com o Dr. Henrique Jones, “as mais comuns são as lesões musculares, embora as lesões ligamentares – nomeadamente, a entorse do tornozelo, que representa a lesão mais frequente na prática desportiva – sejam também muito frequentes. No contexto das lesões intra-articulares, são muito frequentes a rutura do menisco e a rutura do ligamento cruzado anterior, no joelho, e lesões da cartilagem em qualquer articulação de carga. No âmbito das lesões tendinosas, encontram-se as tendinoses, tendinites e, as mais graves, ruturas tendinosas. No capítulo articular, as luxações são também muito frequentes, mas, normalmente, não representam situações graves. Após repouso e tratamento adequado a luxação pode não voltar a ocorrer mas, muitas vezes, repete-se e a solução poderá exigir cirurgia. Apesar de menos frequentes, as fraturas são, habitualmente, a lesão mais grave da traumatologia desportiva aguda”.
O especialista sublinha ainda que “as lesões crónicas surgem no seguimento de lesões agudas que não foram corretamente tratadas e que evoluem sintomaticamente ao longo dos anos – como acontece no processo de uma tendinite mal tratada e que, com o tempo, dá lugar à lesão tendinosa crónica. Por fim, as lesões de acumulação traumática, também designadas lesões de sobrecarga, decorrem da prática de exercício em condições de fadiga, em que o organismo é novamente solicitado sem que tenha decorrido o tempo de repouso necessário”.
 

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Benefícios e malefícios no ginásio

Hoje em dia, frequentar um ginásio é uma opção muito comum para manter a boa forma física. “A frequência do ginásio, nas suas várias vertentes, tem todo o interesse se for encarada numa perspetiva de melhoria e manutenção do bem-estar físico e psíquico, mas de forma equilibrada e natural. No entanto, muitas pessoas sujeitam-se a esforços físicos excessivos para os quais, muitas vezes, não estão preparadas. Muitas querem rapidamente ganhar massa muscular ou emagrecer e é muito frequente ocorrerem lesões graves nos ginásios”, observa o Dr. Henrique Jones, acrescentando:

“Quando se frequenta o ginásio por elevação do ego, sublimação e imitação de um ideal de beleza física, tendo em vista a modelação da massa muscular – e porque é muito difícil atingir determinados objetivos só com o trabalho natural do músculo – é fácil cair na tentação de recorrer à ajuda de suplementos energéticos. Muitos dos compostos destes produtos não são inócuos para a saúde e alguns são mesmo muito prejudiciais, concretamente, as hormonas de crescimento e os esteroides anabolizantes. Além de fragilizar as estruturas do aparelho locomotor e de potenciar a ocorrência de lesões tendinosas e musculares graves, o uso continuado destas substâncias pode ter consequências cardíacas e hepáticas também graves.”

Associado ao esforço excessivo e à toma de suplementos energéticos com potencial nocivo para a saúde, existe nos ginásios um denominador comum: “o aconselhamento é, quase sempre, feito de boca em boca, entre pares – e não, como deveria ser, do médico para o utente.
É um problema que muito preocupa a comunidade médico-desportiva, assim como nos preocupa a necessidade de realizar um exame médico-desportivo rigoroso, no sentido de aferir se a pessoa tem condições, ou limitações, à prática de um determinado desporto ou nível de esforço. Infelizmente, em Portugal esse exame ou não é feito ou, raras vezes, é realizado com o devido rigor”, constata o Dr. Henrique Jones, sublinhando que “o exame médico-desportivo é um ato médico que tem de ser valorizado e objeto de rigor, quer pelo praticante, quer pelo médico.”

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