Artrites: articulações que inflamam e doem

As dores do foro musculoesquelético são as mais frequentemente sentidas pela população e as artrites estão certamente entre as causas mais comuns. A inflamação e a dor articular podem ter origem em doenças distintas e, por esse motivo, o tratamento a instituir diverge, pelo que é essencial consultar um especialista.

Quais as causas mais frequentes de artrite?

As artrites decorrem de “um processo inflamatório nas articulações, cuja origem pode ser variada”, explica o Prof. Doutor Jaime Branco, reumatologista, diretor do Serviço de Reumatologia do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental – Hospital de Egas Moniz. Nomeadamente, exemplifica o especialista, “nos casos de gota úrica, a artrite resulta de um conjunto de reações de base microcristalina, com deposição de cristais de urato de sódio nos tecidos musculoesqueléticos, provocando a inflamação; por sua vez, a artrite reumatoide é uma doença com base imunológica; as artrites podem também ter origem reativa, como sucede em algumas espondilartropatias; existem também artrites de base infecciosa, isto é, causadas por agentes bacterianos ou virais; as articulações podem também inflamar em fases de agudização de doença articular degenerativa, designada como artrose, com manifestação muito frequente nas articulações das mãos. Ou seja, apesar de a artrose não ser uma doença de raiz inflamatória, mas sim degenerativa, determinadas etapas da sua evolução podem cursar com inflamação que pode ser de progressão rápida, com grave afetação das cartilagens articulares”.

Voltar ao início

Quais são as articulações mais atingidas?

A localização das articulações mais afetadas depende da doença de base. Segundo o reumatologista, “as articulações mais atingidas pela artrite reumatoide são as pequenas articulações das mãos, dos pés, dos punhos e as articulações do tornozelo – embora, teoricamente, todas as articulações possam ser atingidas por esta doença. De facto, muitas vezes, há também atingimento das articulações dos joelhos, das ancas, dos cotovelos, dos ombros e das temporomandibulares. Na artrite reumatoide é característico o atingimento bilateral, simétrico e aditivo das articulações. Bilateral e simétrico, porque, por exemplo, quando as articulações da mão esquerda são afetadas e começam a doer, também as articulações da mão direita são afetadas e doem. Isto é válido para as articulações dos pés, dos joelhos, dos ombros, etc.. Aditiva porque, quando a dor se manifesta na articulação do punho, as dores que primeiramente se haviam manifestado nas articulações da mão mantém-se, não desaparecem”. No que diz respeito às espondilartropatias, “afetam predominantemente a coluna vertebral. No entanto, atingindo também articulações periféricas, podem igualmente afetar as grandes articulações dos membros inferiores – do joelho e do tornozelo. Habitualmente, o atingimento é assimétrico”, indica o especialista. Quanto à artrite de origem infecciosa, adianta, “pode também atingir qualquer articulação, embora dependa em boa medida da génese da infeção e, sobretudo, se existem ou não manifestações articulares prévias – isto porque as infeções ocorrem, sobretudo, em articulações que anteriormente já haviam sofrido lesão”. O Prof. Doutor Jaime Branco observa ainda que “muitas pessoas têm mais queixas de dor articular com o calor, outras têm mais queixas com o frio, depende de caso para caso – mas, genericamente, os processos de inflamação articular deverão ressentir-se mais com o calor. Inversamente, as situações de doença articular degenerativa (artrose) tendem a dar-se melhor com o calor e a ressentir-se com o frio”.

Voltar ao início

Quem está em maior risco de sofrer artrite?

De um modo geral, as mulheres são mais afetadas pelas doenças reumáticas e o avanço da idade é um fator de risco aumentado. “Por exemplo, relativamente à artrite reumatoide, a proporção é de três mulheres atingidas para um homem. 

Na artrite psoriática – associada à manifestação de uma doença cutânea chamada psoríase – existe um maior equilíbrio, numa relação de cerca de 3 mulheres doentes para cada dois homens”, assinala o especialista. Todavia, ressalva, “existem exceções – nomeadamente, a gota úrica atinge mais os homens. No contexto das espondilartropatias, a espondilite anquilosante é também mais prevalente e, habitualmente, mais grave nos homens”. Por sua vez, “a artrite idiopática juvenil é uma forma de doença reumática com diversas formas de manifestação e que atinge crianças e jovens até aos 16 anos de idade”, refere o reumatologista.

Voltar ao início

Prevenção só para a gota úrica

O Prof. Doutor Jaime Branco afirma que “globalmente, o aparecimento das diversas formas de artrites não é passível de ser prevenido, com exceção da gota úrica. De facto, é prejudicial a ingestão de alimentos propiciadores ao aumento do ácido úrico no sangue, como sejam as vísceras de animais, a carne de caça, a carne de animais jovens – isto é, devemos preferir galinha a frango, porco a leitão, vaca a vitelo – o chocolate, as bebidas alcoólicas, nomeadamente, as licorosas como o vinho do Porto ou da Madeira, mas também a cerveja ou o vinho verde, e o marisco”. No entanto, “em relação a outras doenças que causam artrites não existe nenhuma evidência científica de que a dieta alimentar possa ter influência.”

Voltar ao início

Consulte um especialista para um tratamento diferenciado

Atualmente, existe um vasto arsenal terapêutico ao dispor dos doentes com doença articular. O especialista sublinha que “o tratamento deve ser sempre administrado de acordo com a doença de origem, pelo que é fundamental consultar um especialista, para obter o diagnóstico diferencial”. E exemplifica: “Tratando-se de gota úrica, a terapêutica a instituir é baseada em anti-inflamatórios e hipouricemiantes, para reduzir os níveis de ácido úrico. Nos casos de artrite reumatoide, a primeira linha de tratamento faz-se com metotrexato, um citostático também utilizado como medicamento modificador da evolução da doença reumática, com efeito anti-inflamatório e imunossupressor. Se o doente não tiver intolerância, os corticoides têm também um papel importante, nomeadamente, na fase inicial do tratamento, assim como medidas gerais de recuperação física, se houver necessidade. Na artrite psoriática, o tratamento é semelhante. Em fases de agudização da artrose e quando existe inflamação, o tratamento é feito, sobretudo, à base de anti-inflamatórios. Nestes casos, a administração de corticoides em baixa dose pode também ter interesse, bem como os antipalúdicos. Em casos de artrite infecciosa, faz-se tratamento antibiótico, após antibiograma, de modo a administrar o antibiótico correto para o agente em causa. Para as espondilartropatias e a artrite reumatoide existem também novos tratamentos biológicos que, perante a falência das terapêuticas clássicas, têm também o seu lugar no tratamento destes doentes.” A concluir, o Prof. Doutor Jaime Branco reforçou a necessidade de “consultar um especialista para determinar a doença de base, porque só assim é possível fazer um tratamento adequado”.

Voltar ao início