A dor não é uma inevitabilidade

De todos os sintomas de doença, a dor é o mais comum. Mas não tem de viver com ela. Quem o diz é o Dr. José Romão, chefe de Serviço de Anestesiologia da Unidade de Dor Crónica do Hospital de Santo António, no Porto, e Coordenador Interino da Comissão Nacional de Controlo da Dor da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Quais os tipos de dor que mais afetam a população portuguesa?

Dr. José Romão (JR) – A dor é o sintoma mais comum em todo o mundo e o que leva mais pessoas a recorrer a cuidados de saúde. Embora Portugal seja parco em estatísticas, não existem motivos para duvidar que seja diferente.
Quando se fala sobre dor, é necessário distinguir a vertente aguda e crónica. Em Portugal e em todo o mundo, a dor crónica mais referida é, sem dúvida, do foro musculoesquelético – que afeta músculos, ossos e articulações. As queixas de dores nas costas (lombalgias) e artroses são duas das mais frequentes. No contexto da dor aguda, são muito prevalentes os casos decorrentes da traumatologia aguda, por exemplo, provocados por quedas ou acidentes. Também muito comuns são as dores de cabeça (cefaleias). Nas mulheres, a dor menstrual (dismenorreia) é também muito prevalente e pouco valorizada, apesar de, muitas vezes, ser fonte de grande desconforto e até de absentismo laboral e escolar. Chegam também aos hospitais pessoas com dores de dentes (odontalgias) muito violentas.
 

Voltar ao início

Os médicos, em geral, valorizam a dor tanto quanto deveriam?

JR – Infelizmente, não – e isso não acontece só em Portugal. Em todo o mundo, está instituída uma cultura de desvalorização da dor. Isto é válido para as diversas classes de profissionais que trabalham em cuidados de saúde. Só não é válido para quem sofre a dor.
Ao nível dos profissionais de saúde, esta cultura instituída de desvalorização da dor começa por estar patente nas escolas médicas e de enfermagem onde recebem a sua formação. De facto, os profissionais saem das escolas pouco sensibilizados e com pouca formação para o problema da dor. Contudo, nos últimos anos, e apesar de não serem tantos nem tão rápidos quanto seria de desejar, é preciso reconhecer que têm ocorrido progressos.
 

Voltar ao início

A desvalorização da dor pode levar ao seu subdiagnóstico e subtratamento?

JR – Sim, esta cultura tem como principal consequência o subdiagnóstico e o subtratamento da dor. É sabido que a dor gera mais dor, portanto, prestar-lhe menor atenção pode contribuir para a sua perpetuação e, muitas vezes, entra-se num ciclo vicioso que se torna cada vez mais difícil de quebrar.

Voltar ao início

Desvalorizar a dor pode também levar ao subdiagnóstico e subtratamento de doenças que lhe estejam associadas?

JR – Sim, pode. De facto, muitas doenças, algumas graves, manifestam-se inicialmente com dor. A pessoa que insistentemente desvaloriza a dor e adia a consulta médica, ou que não refere a queixa em consultas de rotina, pode estar, inadvertidamente, a obstruir a obtenção de um diagnóstico e a deixar evoluir uma doença. Por exemplo, uma pessoa que deixa perpetuar no tempo uma dor abdominal, sem observação médica, pode estar a passar ao lado de um cancro digestivo e a atrasar um diagnóstico que poderia ser mais precoce.

Voltar ao início

Existe vantagem biológica na sensibilidade à dor? A dor pode ser útil?

JR – A distinção entre dor aguda e dor crónica não diz apenas respeito ao tempo durante o qual se manifestam. É importante reter que a dor aguda constitui um mecanismo de autodefesa do organismo, como um sistema de alarme para lesões ou potenciais lesões no nosso corpo. Neste sentido, a dor aguda é muito útil, na medida em que, paradoxalmente, contribui para o nosso bem-estar. Existe uma doença genética rara que provoca insensibilidade à dor. As pessoas que sofrem desta doença têm uma vida extremamente complicada, mutilam-se com facilidade porque não conhecem os limites impostos pela dor. A sua sobrevivência está diminuída, porque lhes falta um mecanismo de autodefesa que lhes permite saber que a sua saúde pode estar em risco. Por sua vez, até hoje, ninguém foi capaz de demonstrar uma vantagem biológica para a dor crónica. Não contribui para o bem-estar do indivíduo e não é um sinal de alarme, logo, não faz sentido deixar que se perpetue.

Voltar ao início

Como se reflete a vivência da dor na qualidade de vida das pessoas?

JR – Frequentemente, a dor tem um enorme impacto na vida de quem a sente. Em particular, a dor crónica tem um impacto multidimensional e, geralmente, mais significativo. Este é outro dos aspetos que a distingue da dor aguda. Uma das consequências mais comuns da dor crónica é levar o indivíduo a imobilizar-se, condicionando absentismo laboral – por vezes, com baixa prolongada. Não são raros os casos de pessoas que, por causa da sua dor crónica, perdem o emprego e vêm o rendimento familiar diminuído. Muito frequentemente, a dor crónica condiciona, também, isolamento social. Como tem dor, a pessoa tende a mexer-se cada vez menos e a isolar-se cada vez mais: deixa de sair com os amigos, deixa de se encontrar com a família, já não vai beber um copo com os colegas do trabalho… Ao nível psicológico, a ansiedade e a depressão são imensamente comuns nos indivíduos com dor crónica. Portanto, tem consequências em múltiplos domínios: social, psicológico, laboral e familiar. A dor crónica afeta a qualidade de vida das pessoas e, por vezes, mais do que isso, causa a disrupção completa da vida do indivíduo, com repercussões devastadoras.
Comparativamente à dor crónica, a dor aguda não tem um leque tão alargado e marcado de consequências. No entanto, frequentemente, tem também um impacto muito significativo sobre a qualidade de vida.
 

Voltar ao início

Que mensagem deixaria à população e aos profissionais de saúde?

JR – A dor não se cura, alivia-se – e, com frequência, a dor pode ser aliviada – desde que a pessoa a reporte ao profissional de saúde e que este a valorize e trate adequadamente. A dor não é uma inevitabilidade. Procure o seu médico, queixe-se e exija tratamento. Por outro lado, é preciso investir na formação dos profissionais de saúde e dar-lhes mais conhecimentos para uma melhor abordagem da dor.

Voltar ao início