É possível travar a evolução do deficit cognitivo ligeiro

Fruto do aumento da esperança média de vida do ser humano, a manifestação de deficit cognitivo ligeiro (DCL) é cada vez mais comum em pessoas idosas. Segundo a Dr.ª Cristina Januário, neurologista dos Hospitais da Universidade de Coimbra, “o DCL não descreve somente a zona de transição entre o envelhecimento e a demência de Alzheimer. Hoje, é reconhecida como uma doença que necessita de ser diagnosticada e tratada precocemente, de modo a travar a cascata de eventos moleculares, antes do processo de neurodegenerescência”.

O que é o deficit cognitivo ligeiro e quais são os critérios para estabelecer o diagnóstico?

Dr.ª Cristina Januário (CJ) – Chamamos DCL a uma situação de transição entre o envelhecimento normal e a demência. O conceito de demência implica a existência de deterioração progressiva em várias funções cognitivas (tais como a memória, a linguagem e a atenção), de tal forma que a execução independente das tarefas da vida diária esteja comprometida. Pelo contrário, no deficit cognitivo ligeiro o doente queixa-se de perda de capacidades, no entanto, não suficientemente intensa para que interfira com a sua vida diária.
O diagnóstico de deficit cognitivo ligeiro é clínico, baseado no julgamento do médico, e assenta em critérios consensualmente aceites. São eles: a evidência de ligeira deterioração intelectual, quantificada com testes neuropsicológicos; e a preservação do desempenho nas atividades da vida diária. O indivíduo com deficit cognitivo ligeiro não está completamente normal, mas também não reúne critérios para o diagnóstico de demência.
 

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Que sintomas os doentes referem com maior frequência? Há risco de evolução para demência mais grave?

CJ – Quase sempre os doentes apresentam queixas de perda de memória, (DCL Amnéstico), sendo estas formas com deterioração na memória as que apresentam maior risco para o desenvolvimento de demência de Alzheimer. A percentagem anual de indivíduos com DCL que vai evoluir para uma situação de demência é de cerca de 10 a 15%. Qualquer outro domínio cognitivo pode ser também afetado (atenção, função executiva), o que é menos frequente.

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Quais as principais causas do deficit cognitivo ligeiro, principalmente, em pessoas com idade avançada?

CJ – Trata-se de um processo neurodegenerativo, logo com múltiplas causas não ainda completamente esclarecidas. No entanto, fatores vasculares e traumáticos podem também estar na sua origem.

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O processo evolutivo do deficit cognitivo ligeiro pode ser travado?

CJ – A maioria das demências desenvolvem-se lenta e progressivamente, pelo que é muito importante identificar em cada caso o momento de DCL que precede a demência. O objetivo é reconhecer e diagnosticar precocemente estas situações, quando não existe ainda grande perda funcional e se pode acreditar que as terapêuticas possam exercer o maior benefício a longo prazo.
Existem diversos estudos que avaliam a eficácia dos inibidores das colinesterases no DCL, no entanto, a prática da utilização destes fármacos ainda é controversa. São necessários instrumentos de avaliação neuropsicológica e escalas de atividade de vida diária padronizadas, para que o benefício destes fármacos no controlo dos sintomas e na redução do risco de conversão para demência seja uniformemente quantificado.
Os resultados de alguns estudos recentes confirmam que as intervenções que promovem a aprendizagem são eficazes no DCL, bem como o desenvolvimento de estratégias de treino da memória, podendo trazer melhoria e mesmo travar o processo de evolução.
 

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A nutrição poderá exercer alguma proteção na manutenção da função cerebral?

CJ – Também as alterações nutricionais, particularmente no indivíduo idoso, podem ter um papel importante no funcionamento do cérebro. Carências específicas de nutrientes agravam prévios processos patológicos. Como tal, intervenções que visem a correção de deficits de nutrientes podem melhorar ou prevenir o desenvolvimento de alterações cognitivas.

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