Prisão de ventre – parado no trânsito?

Uma vez que todos temos o nosso próprio ritmo fisiológico, é difícil definir a partir de que momento se pode considerar o diagnóstico de obstipação – o termo médico para aquilo a que chamamos prisão de ventre. No entanto, “geralmente, considera-se um número de dejeções inferior a três por semana”, indica o Dr. António Curado, diretor do Serviço de Gastrenterologia do Centro Hospitalar do Oeste Norte e presidente do Centro Nacional de Registo de Dados em Gastrenterologia (CEREGA).

Quais são as causas mais comuns de obstipação?

De acordo com o especialista, as causas de obstipação mais prevalentes na população estão relacionadas com fatores funcionais, como a “deficiente ingestão de fibras” – provocada por um padrão alimentar com excesso de alimentos processados e escasso em vegetais, leguminosas, frutas, pão integral e cereais integrais – e a “insuficiente ingestão de água”, dado que a desidratação favorece a prisão de ventre. "O sedentarismo e o stress são também causas frequentes de obstipação".
Em particular, o stress surge muitas vezes associado à síndrome do intestino (ou cólon) irritável, “uma perturbação funcional que pode cursar com predomínio de obstipação, de diarreia ou ambas, em alternância. Quando há predomínio de obstipação, o stress é também uma causa determinante”, sublinha o Dr. António Curado.
Excluindo casos de obstrução intestinal decorrentes de cancro ou da estenose (estreitamento) pós-cirúrgica do intestino, o gastroenterologista refere que a prisão de ventre pode ser uma das consequências do “AVC, da doença de Parkinson, assim como de doenças metabólicas, nomeadamente, o hipotiroidismo ou a diabetes, que pode provocar lentificação do trânsito intestinal”.
A toma prolongada de alguns medicamentos poderá também provocar ou agravar a obstipação, entre outros, “antipsicóticos, antidepressivos, analgésicos narcóticos como os opiáceos (muito utilizados no controlo da dor crónica), suplementos de ferro, e alguns anti-hipertensores, como os bloqueadores dos canais de cálcio”.
 

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Sintomas de um trânsito que não flui

Associadas às dejeções pouco frequentes, a maioria dos doentes que sofrem de obstipação apresentam as seguintes queixas:
  • Mau funcionamento dos intestinos;
  • Desconforto, distensão e/ou dor abdominal; sensação de barriga inchada;
  • Esforço na defecação; - Fezes duras e secas;
  • Sensação de defecação incompleta.

Em alguns casos, a dificuldade no ato da defecação pode provocar “laceração da margem anal e o aparecimento de fissuras extremamente dolorosas, com interferência na qualidade de vida”. O Dr. António Curado indica que muitos destes casos só encontram solução no bloco operatório. Reportando-se a casos mais extremos, o especialista refere já ter observado “doentes que ao longo de anos tiveram mau funcionamento intestinal, levando à formação de fecalomas – fezes muito duras que se acumulam no interior dos intestinos e que podem resultar em obstrução intestinal grave, culminando pontualmente com a necessidade de intervenção cirúrgica”.

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Tratamento comportamental e medicamentoso

Por se tratar de uma manifestação muito comum e encarada como benigna, “é muito frequente o recurso a medicamentos de venda livre ou a produtos naturais para a prisão de ventre. Apesar de serem eficazes, na sua maioria, a falta de orientação médica poderá ser prejudicial, inclusivamente, porque o abuso de alguns tipos de laxantes pode ter como efeito secundário o agravamento da obstipação”, alerta o Dr. António Curado. Assim, numa primeira abordagem, o gastroenterologista aconselha a adoção de medidas comportamentais, ditas higienodietéticas, como “a retificação da dieta alimentar, o controlo do stress e a prática de exercício físico regular. Muitas vezes, estas modificações de estilo de vida são suficientes para a melhoria ou mesmo para a correção da obstipação”. Perante a falência destas e uma sintomatologia que se torna cada vez mais incómoda, “existe medicação muito eficaz na resolução do problema, mas, regra geral deve ser feita por um curto período de tempo. É claro que poderão existir casos que necessitem de terapêutica prolongada, nomeadamente, quando estão associadas doenças crónicas que provocam obstipação”, salvaguarda o especialista, sublinhando: “No contexto da obstipação mais comum, decorrente de fatores funcionais, mas ainda assim persistente, e tratando-se de um doente relativamente jovem e sem outros fatores de alarme, como seja a perda de sangue nas fezes, podemos recorrer a medicamentos laxantes, que existem sob as mais variadas formas – comprimidos, xaropes, granulados, supositórios, microclisteres, entre outras”. Nesta classe de fármacos encontramos os laxantes emolientes, os laxantes de contacto, os laxantes expansores de volume e os laxantes osmóticos, com diferentes mecanismos de ação e especificidades de indicação terapêutica. O Dr. António Curado adverte que “os laxantes de contacto são os mais potentes, mas o uso continuado pode criar habituação, isto é, a longo termo deixam de ser tão eficazes e podem ter prejuízo sobre o intestino, com manifestação de atonia e cólicas”. Não obstante, contrapõe, “podem ser muito úteis em situações em que os sintomas são já muito incómodos e que não respondam com a abordagem comportamental”. A concluir, o especialista deixa uma mensagem importante: “qualquer pessoa, em qualquer altura da sua vida, pode ter um episódio de obstipação. Todavia, perante um quadro de obstipação que começa a manifestar-se, recorrentemente, acima dos 50 anos, é recomendável realizar estudos endoscópicos para acautelar outro tipo de lesões, nomeadamente, cancerosas”.

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