Olho seco – A falta que nos fazem as lágrimas

Quem sofre de deficit lacrimal, ou olho seco, sabe que é um problema de saúde muito incómodo e que exige do doente uma tomada de consciência, para que adote com rigor o esquema de tratamento e medidas comportamentais auxiliares – mas importantes. Não sendo um problema grave, na maioria dos casos, uma abordagem negligente pode acarretar consequências mais sérias. O entrevistado é o Dr. Jorge Palmares, oftalmologista do Hospital Privado da Boavista (HPP), no Porto, e um dos maiores especialistas nacionais nesta área.

O que é o deficit lacrimal e quais as principais causas?

Dr. Jorge Palmares (JP) – Em Oftalmologia, o termo “deficit lacrimal” corresponde à mais popular designação “olho seco” e refere-se a um conjunto de alterações do filme lacrimal, uma película que protege o globo ocular externo. Estas alterações da unidade funcional formada pela córnea, conjuntiva e glândulas lacrimais estão associadas a diminuição da produção ou a excessiva evaporação das lágrimas, provocando instabilidade do filme lacrimal, sintomas de irritação e doença ocular.

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Que sintomas os doentes referem com maior frequência?

JP – A sensação de corpo estranho dentro do olho, ardência, picor, irritação, lacrimejo reflexo, comichão ligeira, fotofobia (dificuldade em encarar a luz), visão enevoada, intolerância às lentes de contacto, vermelhidão ocular, secreção mucosa, pestanejo frequente e flutuação diurna da capacidade visual, podendo verificar-se um agravamento ao fim do dia. Contudo, é bom frisar que outras doenças da superfície ocular poderão provocar sintomas semelhantes, pelo que é essencial estabelecer o diagnóstico correto.
Nos casos mais graves podem surgir complicações, tais como úlceras, adelgaçamento, neovascularização e perfuração da córnea, infeção microbiana e cicatrização anormal, com perda da visão.
A intensidade e a duração da sintomatologia são variáveis. Se os fatores de risco forem evitados, a maioria dos casos não são graves.
 

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Que importância têm as lágrimas para a saúde ocular?

JP – As lágrimas são constituídas por uma camada lipídica, que evita a evaporação e estabiliza o filme lacrimal, e por um gel aquoso/mucoso que promove a adesão das lágrimas à superfície ocular. 

As lágrimas são muito importantes porque garantem a nutrição e a hidratação da superfície ocular, asseguram uma melhor visão e previnem a ocorrência de lesões dos tecidos oculares.

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Existem fatores de risco para vir a sofrer de olho seco?

JP – Sim, os principais fatores de risco são a idade avançada, a pertença ao sexo feminino, a menopausa, a artrite e o tabagismo. Existem também fatores ambientais que agravam os sintomas, nomeadamente, o vento, viajar de avião, a exposição ao ar condicionado, o calor, o contacto com agentes alergénios, frequentar ambientes com o ar poluído (discotecas, bares, centros comerciais) e os esforços visuais prolongados, por exemplo, a ler ou ao computador.
Algumas patologias estão relacionadas com a manifestação de olho seco, tais como blefarite (inflamação e produção de caspa nas pestanas), doenças alérgicas, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistémico, rosácea, síndrome de Sjogren, síndrome de Stevens-Johnson, linfoma, sarcoidose, viroses, SIDA, paralisia facial, doença de Parkinson, alterações hormonais, carência grave de vitamina A e o alcoolismo.
Outros desencadeantes são a radioterapia local, quimioterapia, cirurgia das pálpebras, a cirurgia refrativa (em doentes com miopia ou hipermetropia) e alguns fármacos diuréticos, anti-histamínicos, antidepressivos, hipnóticos, antiglaucomatosos, vasoconstritores, corticosteroides, hormonas, antiarrítmicos, isotretinoína, atropina, betabloqueadores e conservantes dos colírios.
 

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O olho seco tem cura? Como se processa o tratamento medicamentoso?

JP – O tratamento do olho seco é essencial para melhorar a visão e minimizar os sintomas e lesões da superfície ocular externa, mas a doença nem sempre é curável. É fundamental que os doentes sejam alertados quanto à evolução para um processo patológico crónico, irreversível, e devidamente instruídos para o regime terapêutico a implementar, assim como a ter cuidados redobrados na utilização de lentes de contacto e nas indicações para cirurgia refrativa, que pode agravar a sintomatologia. Muitas vezes, o olho seco é tratado com colírios descongestionantes e vasoconstritores. Apesar de produzirem um alívio temporário, estes devem ser evitados, já que a prazo tornam o olho ainda mais seco. Em determinados casos, poderá ser necessário fechar os canalículos lacrimais com tampões de silicone ou colagénio, ou por laser. Os casos muito graves de olho seco e boca seca (síndrome de Sjogren) são tratados com medicamentos de toma oral. A ciclosporina tópica e os corticoides podem ser úteis em alguns casos mais graves. Havendo uma doença de base, será também ser útil referenciar os doentes para avaliação e tratamento das doenças inflamatórias associadas e que requerem terapêutica específica. Por fim, alguns estudos apontam o eventual benefício de uma alimentação rica em ácidos gordos ómega 3 e ómega 6.

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Quantos portugueses sofrem de olho seco?

JP – Vários estudos internacionais estimam uma prevalência que ronda os 15% – o que, extrapolado para a população nacional, representa aproximadamente 1,5 milhões de portugueses. A prevalência varia entre 8% nos adultos com menos de 60 anos e 19% nos indivíduos com mais de 80 anos. Devido ao aumento da esperança média de vida, a prevalência de olho seco tem vindo a aumentar.

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