Feche os olhos às infeções

Conjuntivites, queratites, queratoconjuntivites e blefarites são designações de tipos de infeções oculares externas comuns. Vermelhidão, dor, sensação de picada e secreção purulenta são algumas queixas dos doentes. Saiba mais sobre este problema de saúde pelas palavras do Dr. F. Esteves Esperancinha, chefe de Serviço de Oftalmologia do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) e presidente do Colégio da Especialidade de Oftalmologia da Ordem dos Médicos.

O que são infeções oculares externas e quais as causas?

Como o nome indica, as infeções oculares externas podem ocorrer em várias regiões exteriores ao globo ocular – “na pálpebra, na conjuntiva (membrana que envolve toda a parte branca do olho), ou na córnea (a porção transparente do olho, em frente da pupila e da íris)”, explica o Dr. F. Esteves Esperancinha. Assim, conforme o local infetado, o doente poderá desenvolver:
  • Conjuntivite – infeção da conjuntiva;
  • Queratite – infeção da córnea;
  • Queratoconjuntivite – infeção da córnea e da conjuntiva;
  • Blefarite – infeção da pálpebra.

Na origem destas infeções estão “bactérias, vírus, fungos e alguns protozoários. Regra geral, as infeções oculares externas bacterianas são as que mais afetam a população (com prevalência estimada entre 1,5 a 2%, em Portugal) – salvo quando ocorrem epidemias víricas, como sucede em surtos de queratoconjuntivites víricas”, esclarece o especialista, ressalvando ainda que “por vezes, pode também ocorrer infeção com associação concomitante de bactérias e vírus”. As infeções fúngicas, menos frequentes, podem também atingir a córnea e a conjuntiva. Muitas vezes, são de diagnóstico difícil e requerem tratamento específico e mais prolongado. As infeções por protozoários são mais raras.

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Como se transmitem os microrganismos que infetam os olhos?

O oftalmologista refere que, “habitualmente, a transmissão resulta do contacto do olho com mãos mal-lavadas ou objetos infetados”, por exemplo, toalhas de mãos e rosto, lentes de contacto ou outros equipamentos. 

“É também possível, mas mais raro, que a transmissão decorra da presença de microrganismos no ambiente”.

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De que sintomas se queixam os doentes?

Os doentes com infeções oculares externas bacterianas queixam-se “de secreção purulenta que deixa a pálpebra «colada», inchada e provocando grande desconforto, dor, picada e dificuldade na abertura do olho que, além disso, se apresenta bastante vermelho. Podem também cursar com fotofobia, isto é, dificuldade em encarar a luz”, indica o Dr. F. Esteves Esperancinha. 

Quando a infeção resulta da ação de vírus e há conjuntivite vírica, os sintomas incluem “secreção aquosa e vermelhidão ocular. Além da conjuntiva, a córnea é quase sempre atingida e, sendo uma estrutura muito sensível, a sintomatologia por lesões de queratite é mais intensa, com fotofobia muito marcada, dor acentuada, sensação de picada e, por vezes, a necessidade de manter o olho fechado para aliviar o desconforto”, observa o especialista.

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Fatores condicionantes: cuidado com as lentes de contacto

De acordo com o médico, a maior ou menor predisposição para contrair estas infeções depende do grau de resistência de cada um aos microrganismos que as provocam. “Muitos oftalmologistas que fazem urgências já contraíram conjuntivites víricas e bacterianas, mas acabam por criar maior resistência”, relata. Assim, “quem não tenha tido contacto prévio com estes agentes, mais facilmente pode ser infetado. Precisamente por não terem ainda desenvolvido imunidade, as crianças mais pequenas poderão estar mais vulneráveis a infeções, principalmente, víricas”. Por outro lado, na população idosa são especialmente incidentes as blefarites – inflamações da pálpebra – concretamente, na base das pestanas, onde se instalam frequentemente bactérias como o Streptococcus. Quem usa lentes de contacto faz frequentemente infeções oculares externas bacterianas – “algumas graves, como é exemplo a infeção por Pseudomonas, bactéria que provoca úlceras da córnea e que, em situações extremas, pode levar à perda total do olho”, alerta o Dr. F. Esteves Esperancinha. E sublinha: “O uso de lentes de contacto com vermelhidão ocular pode corresponder somente a pequenas lesões de queratite, mas pode também corresponder a infeções ulcerosas graves. A primeira medida é retirar imediatamente as lentes de contacto e não voltar a colocá-las enquanto a situação não estiver devidamente esclarecida por um oftalmologista. Isto é absolutamente fundamental”.

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Tratamento antibiótico só com infeção manifesta

A infeção ocular externa requer tratamento médico prévio à intervenção cirúrgica intraocular. Neste quadro, “nos três dias prévios à cirurgia, deve sempre ser feito tratamento antibiótico, colocando no olho uma gota de colírio 3 a 4 vezes por dia”, aconselha o oftalmologista. 

Como em qualquer outra terapêutica, afirma, “o doente sem infeção manifesta, sem queixas e que não vá ser sujeito a cirurgia não deve fazer profilaxia com antibiótico, porque em contrário está-se a favorecer o desenvolvimento de resistência dos agentes infecciosos ao tratamento. Devemos preservar o uso de antibióticos para quando são realmente necessários.”

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