Ponha um fim ás aftas!

A presença de aftas na boca nem sempre corresponde ao diagnóstico de estomatite aftosa. Por vezes, surgem como efeito secundário à toma de determinados medicamentos e podem cursar noutras doenças sistémicas e mais graves

Estomatite aftosa – o que é?

Existem muitas classificações para descrever a estomatite aftosa e em que consiste uma afta, mas a sistematização de critérios não é universalmente aceite. Numa definição clássica, a afta é um termo que descreve uma “lesão superficial da mucosa da boca, dolorosa, com tendência a apresentar-se recorrentemente e com cura espontânea. 

A estomatite aftosa pode ser classificada como menor ou maior, conforme se apresente com aftas pequenas ou grandes, e considera também a úlcera de Sutton – nome do autor que em 1911 descreveu pela primeira vez lesões gigantes da boca, mas que são raras. 

Mais raras ainda são as úlceras herpetiformes, cujo nome deriva do facto de as lesões se assemelharem às provocadas pelo herpes, em múltiplas pequenas feridas, muito dolorosas”, explica o Doutor Carlos Zagalo, assistente graduado de Otorrinolaringologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa e professor associado do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, onde leciona a disciplina de Cirurgia e Medicina Oral.
A estomatite aftosa é muito frequente nas crianças e extremamente comum na vida adulta. Segundo o especialista, “mais de 50% da população já teve estomatite aftosa em alguma altura da vida, mas o problema tende a desaparecer com o avançar da idade”.
 

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Outra causas para o aparecimento de aftas

A presença de aftas na boca nem sempre corresponde ao diagnóstico de estomatite aftosa. Por vezes, surgem como efeito secundário à toma de determinados medicamentos e podem cursar noutras doenças sistémicas e mais graves, nomeadamente:
  • Doença celíaca;
  • Colite ulcerosa;
  • Doença de Crohn;
  • Lúpus eritematoso;
  • Doença de Reiter;
  • Síndrome de Behçet;
  • Infeção pelo VIH;
  • Tumores malignos do aparelho digestivo – estômago e intestinos.

O grau de associação da manifestação de aftas noutras doenças não é homogéneo nos estudos científicos. Não obstante, “na presença de outros sintomas, a presença recorrente de aftas poderá constituir um sinal para o despiste de outras patologias. Nestes casos, a base do tratamento passa a ser o tratamento da doença sistémica”, refere o otorrinolaringologista.

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Ponha um fim às aftas!

De acordo com o Doutor Carlos Zagalo, “a intensidade da dor, o tempo de cicatrização e a resposta aos tratamentos para a estomatite aftosa têm uma grande variabilidade individual. Na maioria dos casos, a cicatrização ocorre em cerca de 15 dias. Em casos mais graves, mas também mais raros, pode ser considerado um tratamento sistémico à base de corticóides injetáveis ou orais ou mesmo com fármacos imunossupressores.”

Normalmente, “o tratamento é local e à base de anti-inflamatórios da classe dos corticóides. Entre os mais utilizados estão a triamcinolona, que se pode encontrar na forma de adesivos de aplicação tópica, diretamente sobre a afta, e o spray de beclometasona. É também comum tentar alcalinizar a mucosa da boca, através de leveduras ou do bochecho com bicarbonato de sódio. Pelo facto de a mucosa ficar mais alcalina, dificulta a proliferação de microrganismos que podem complicar as úlceras aftosas, alertou o especialista, sublinhando:
“É útil ter em conta que a afta pode complicar, com sobreinfeção bacteriana ou contaminação fúngica, nomeadamente, por candida albicans, um fungo muito comum na boca. Nesse caso, deve-se consultar um especialista, tendo em vista a prescrição de medicamentos antibacterianos ou antifúngicos.” 

O Doutor Carlos Zagalo refere ainda que “é também possível fazer terapêutica sintomática com um analgésico local. Esta abordagem não trata efetivamente a afta, mas, enquanto esta não cicatriza, diminui a dor que provoca”.

 

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Por que razão tenho estomatite aftosa?

Excetuando os casos em que resultam de traumatismos na mucosa bocal – por exemplo, por mordedura, colocação de próteses dentárias ou dentes fraturados – as causas para o aparecimento das aftas são desconhecidas. No entanto, várias são apontadas como possíveis, como refere o Doutor Carlos Zagalo:
  • “O stress emocional e os distúrbios do foro psicológico, como estados de ansiedade, são as causas mais frequentemente apontadas nos estudos científicos para explicar o aparecimento de aftas. Os estudantes que frequentam cursos universitários mais exigentes, como a Medicina ou outros, são mais afetados por estomatite aftosa, assim como profissionais com altos níveis de responsabilidade, como os pilotos de avião, por exemplo. Este motivo pode também explicar o facto de as pessoas que pertencem a classes sociais mais altas serem mais afetadas.”
  • “Nas mulheres, a estomatite aftosa surge mais frequentemente na segunda fase do ciclo menstrual – o que, aparentemente, aponta para uma associação a alterações hormonais. Tal facto poderá explicar o facto de a estomatite aftosa ser ligeiramente mais prevalente no sexo feminino.”
  • “Apesar de haver alguma controvérsia, alguns autores referem determinados alimentos como possíveis fatores desencadeantes de estomatite aftosa, nomeadamente, os mais ácidos, como os citrinos, e também o vinagre, o sal e o álcool. A associação ao chocolate, apesar de mais rara, também existe.”
  • “Carência de vitamina B, zinco, ácido fólico e ferro, com associação à anemia, são outras causas apontadas.”
  • “O helicobater pylori, uma bactéria que se aloja na mucosa que cobre a superfície do estômago e é muitas vezes a causa de úlceras, está também associado à manifestação de estomatite aftosa.”
  • “Pessoas com intolerância ao glúten parecem ter maior incidência de estomatite aftosa.”
  • “Alguns estudos referem também a possibilidade de existirem fatores genéticos que predisponham a uma maior prevalência de estomatite aftosa na história familiar. Concretamente, a presença do marcador genético HLA-B12 parece estar associado.”

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