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13/09/2017| Cientistas portugueses testam larvas de peixe como "avatares" de doentes com cancro

Os seus primeiros resultados são muito promissores e foram publicados recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Rita Fior e Miguel Godinho Ferreira são os dois cientistas do Centro Champalimaud que lideram a equipa responsável elo estudo, cujo principal objetivo é transformar as larvas em autênticos “avatares” dos doentes, permitindo otimizar o tratamento personalizado do cancro. Tudo começou em 2013, no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) de Oeiras, quando uma colega comum aconselhou os dois cientistas a partilharem ideias.
Atualmente, de uma forma geral, a eficácia de uma quimioterapia anti-cancro não é testada de modo personalizado, e quando é feita, consiste em transplantar células do tumor humano para ratinhos, um processo que apenas pode ser realizado em alguns grandes hospitais ou centros oncológicos. Trata-se de um processo muito demorado, que não fornece respostas em tempo útil.
Os cientistas do Centro Champalimaud concluíram que se as larvas de peixe-zebra se revelarem um bom modelo para estes testes, torna-se possível determinar qual é a melhor quimioterapia a utilizar em cada caso em menos de duas semanas. “Mostrámos pela primeira vez que o peixe-zebra e o ratinho respondem da mesma maneira aos tratamentos: com os mesmos fármacos obtemos os mesmos efeitos no ratinho e nas larvas de peixe-zebra”, explica Miguel Godinho Ferreira, citado em comunicado de imprensa.
Da ideia à aplicação
Numa das primeiras conversas que tiveram, Rita Fior e Miguel Godinho Ferreira definiram um objetivo: transplantar células tumorais humanas diretamente para os peixes, sem as cultivar previamente no laboratório. Estávamos em 2013 e o cientista recebeu uma bolsa internacional do Howard Hughes Medical Institute (HHMI) “para fazer investigação em ideias fora do ‘mainstream’ e também para chamar quem eu quisesse a trabalhar comigo”, lembra.
No ano seguinte, os investigadores fixaram-se no Centro Champalimaud o que tornou possível dar início a uma fase mais avançada do projeto porque o novo laboratório ficou instalado mesmo ao lado do serviço de anatomia patológica do Centro Clínico (onde são analisadas as biópsias dos doentes) e Rita Fior passou a ter acesso à farmácia do hospital. Totalmente integrada nos circuitos do hospital, a cientista transplanta para as larvas fragmentos dos tumores dos doentes e utiliza nos peixes exatamente os mesmos protocolos de quimioterapia que são administrados ao doente.
“Já existiam alguns estudos independentes sobre este tipo de abordagem no peixe-zebra”, começa por explicar Rita Fior. E acrescenta: “o que é novo no nosso trabalho é que nós testámos o modelo para ver se conseguia detetar diferenças mesmo pequenas, fizemos o ‘screening’ das opções terapêuticas disponíveis para testar a sua eficácia, comparámos os peixes com os ratinhos e fizemos um estudo experimental preliminar com amostras de doentes.”
Na última parte do novo estudo, os cientistas transplantaram para peixes as massas tumorais de cinco doentes com cancro colorectal do Centro Clínico Champalimaud e do Hospital Amadora/Sintra e, posteriormente, submeteram os avatares desses cinco doentes à mesma quimioterapia para comparar a resposta ao tratamento no peixe com a resposta na pessoa.
“Houve dois doentes para os quais os tumores nas larvas não responderam à quimioterapia escolhida”, diz ainda Rita Fior. E de facto, em concordância com os nossos resultados, pouco tempo depois, esses doentes sofreram uma recidiva.” Pelo contrário, outros dois doentes, cujos avatares responderam ao tratamento, “encontram-se bem até agora”, diz Miguel Godinho Ferreira.
A confirmarem-se os resultados desta equipa, co-liderada por dois cientistas do Centro Champalimaud, em Lisboa, deverá ser possível escolher rapidamente e com segurança o tratamento mais eficaz para cada doente. “O nosso sonho é desenvolver um ‘antibiograma’ para o cancro. Tal como é corrente nos dias de hoje para as infeções bacterianas, nós antevemos obter uma espécie de matriz da eficácia dos vários fármacos para cada doente, que permita aos médicos escolher a terapia mais indicada a cada pessoa”, conclui o investigador.


Notícia original, aqui: http://www.newsfarma.pt/noticias/5678-cientistas-portugueses-utilizaram-larvas-de-peixe-como-avatares-de-doentes-com-cancro.html

 

Fonte Texto e Imagem: News Farma

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